Wajima-nuri
"Wajima-nuri" (輪島塗) é uma tradição japonesa de laca produzida na cidade de Wajima e arredores, na província de Ishikawa. É conhecida por uma camada de base excecionalmente robusta, feita com terra diatomácea e reforço de linho, combinada com superfícies de laca finamente acabadas e decoração em ouro ou madrepérola. O Wajima-nuri desenvolveu-se como um sistema de práticas oficinais altamente especializadas e hoje é considerado uma das principais tradições de laca do Japão.
Contexto Histórico
As descobertas arqueológicas na Península de Noto indicam o uso de laca na região desde a pré-história, embora a ligação direta com o Wajima-nuri atual permaneça incerta. Evidências escritas e materiais sugerem que uma forma próxima da técnica atual foi estabelecida no início do período Edo, quando os artesãos locais começaram a sistematizar os métodos de camada de base utilizando terra diatomácea e urushi refinado, ambos disponíveis localmente.
Durante o período Edo, a laca Wajima circulou amplamente como utensílios de mesa duráveis para uso diário e em cerimónias. A introdução e o aperfeiçoamento de técnicas decorativas, como a incrustação de ouro ("chinkin") e a decoração com metal salpicado ("maki-e"), elevaram ainda mais o seu estatuto entre as elites regionais, os templos e os comerciantes abastados.
A partir do período Meiji, a Wajima-nuri participou em exposições nacionais e feiras internacionais, alinhando com os esforços do Japão para promover o artesanato japonês no estrangeiro. Após a Segunda Guerra Mundial, a produção passou a concentrar-se cada vez mais em utensílios de mesa sofisticados, objetos de decoração e artigos para presentes, sem deixar de fornecer utensílios robustos para ocasiões cerimoniais.
No final do século XX, o artesanato foi oficialmente reconhecido pelo Estado japonês como um artesanato tradicional e como parte do sistema de Bens Culturais Imateriais Importantes relacionados com as técnicas de laca. No século XXI, o Wajima-nuri foi afectado pelas alterações demográficas e, mais recentemente, por catástrofes naturais na Península de Noto. No entanto, os projetos de restauro e as iniciativas de formação visam manter a continuidade da tradição.
Materiais e Camadas de Base
Substratos de madeira
O Wajima-nuri utiliza geralmente núcleos de madeira torneados ou esculpidos, feitos de zelkova japonesa e outras madeiras nobres adequadas para revestimentos repetidos. A madeira é seca ao ar livre durante vários anos para a estabilizar, após o que é moldada grosseiramente, deixada em repouso novamente e só depois acabada na sua forma definitiva.
Terra diatomácea (jinoko)
Uma característica definidora do Wajima-nuri é a utilização de terra diatomácea local finamente moída, conhecida como "jinoko", como enchimento na camada de base. Misturado com laca e, por vezes, outros pós minerais, este material cria uma base espessa e resistente ao impacto. Múltiplas camadas desta mistura são aplicadas, secas e polidas, resultando numa base capaz de suportar camadas adicionais de laca sem fissurar.
Reforço com linho (nunogise)
As áreas sujeitas a tensão, como bordas, juntas e partes inferiores, são reforçadas com tecido de linho saturado em laca. Esta etapa, conhecida como "nunogise", fortalece o substrato e reduz o risco de fissuras ou deformações. O tecido desaparece sob as camadas de base subsequentes, mas continua a ser essencial para a estabilidade a longo prazo do objeto.
Laca Urushi e pigmentos
O revestimento em si é feito a partir da seiva refinada da árvore de laca ("Toxicodendron vernicifluum"). A seiva bruta é filtrada e processada para remover as impurezas e controlar a viscosidade e o brilho. Compostos ricos em ferro, pigmentos vermelhos e negros à base de carbono são adicionados para produzir superfícies vermelhas e pretas características; laca transparente ou ligeiramente tingida é utilizada onde os veios da madeira ou a decoração subjacente devem permanecer visíveis... == Processo de Produção ==
Divisão do Trabalho
A técnica Wajima-nuri está organizada como um sistema colaborativo altamente especializado. Diferentes artesãos são responsáveis pela torneagem e encaixe da madeira, revestimento da base, lacagem intermédia, polimento e decoração final. Cada oficina concentra-se numa sequência limitada de processos, e os objetos passam por muitas mãos até serem concluídos.
Etapas da Base
Após a modelação e o alisamento preliminar, o núcleo de madeira recebe várias camadas de laca misturada com "jinoko". Cada camada é cuidadosamente aplicada, seca numa câmara com humidade controlada e depois lixada para criar uma superfície uniforme. A combinação de carga mineral e múltiplas camadas de laca produz uma base relativamente espessa e resistente.
As arestas e juntas, previamente reforçadas com linho, são integradas nesta base, de modo a que a superfície final não apresente textura de tecido visível. Dependendo da utilização pretendida e da gama de preços, o número de camadas da base pode ser substancial, contribuindo tanto para a resistência mecânica como para a profundidade do acabamento final.
Envernizamento e polimento intermédios
De seguida, são aplicadas camadas sucessivas de verniz colorido ou transparente. Após cada etapa de secagem, a superfície é polida com abrasivos progressivamente mais finos. A técnica não só refina a forma, como também estabelece a profundidade e a luminosidade características das superfícies de Wajima-nuri, preparando-as para uma possível decoração.
Técnicas Decorativas
Embora existam peças sem decoração, o Wajima-nuri está particularmente associado a dois grupos de técnicas decorativas.
Chinkin (decoração com ouro incisado)
Na técnica "chinkin", a superfície da laca é incisada com cinzéis finos para criar linhas, pontos e pequenos recessos. As folhas de ouro ou pó de ouro são então prensadas nestas incisões, onde aderem a finas camadas de laca. Wajima tornou-se um dos principais centros desta técnica, e vários mestres de "chinkin" de renome atuaram na região.
Maki-e e métodos relacionados
A decoração "maki-e" consiste em polvilhar pó de ouro ou prata sobre motivos de laca recém-pintados. Na arte Wajima-nuri, o "maki-e" pode ser combinado com o "chinkin" na mesma peça, criando composições complexas de plantas, animais, paisagens ou padrões abstratos. Outros métodos incluem o uso de folha de ouro recortada ("kirigane"), delicadas incrustações de metal e, ocasionalmente, madrepérola.
A decoração subordina-se, geralmente, à forma funcional do objeto: áreas amplas e planas, como superfícies de tabuleiros, tampas de caixas e exteriores de taças, são os locais preferidos para desenhos mais elaborados, enquanto os interiores conservam frequentemente uma laca vermelha ou preta simples, mas com um acabamento cuidado.
Formas e Tipos Funcionais
A arte Wajima-nuri abrange uma vasta gama de objetos, incluindo:
- taças, pratos e travessas para as refeições do dia-a-dia e cerimoniais;
- tabuleiros e suportes para a apresentação de alimentos e utensílios;
- caixas de alimentos de vários andares ("jubako") utilizadas em ocasiões festivas;
- estojos de escrita e pastas para documentos;
- Utensílios para chá e acessórios de decoração para espaços de receção;
- Artigos comemorativos e presentes para troca nacional e internacional.
Historicamente, a laca de Wajima era especialmente valorizada em residências para ocasiões que exigiam mesas postas duráveis e formalmente corretas, onde a sua base espessa e resistência a lascas eram consideradas vantagens práticas.
Prática e Transmissão em Oficinas
O treino em Wajima-nuri ocorre geralmente através de aprendizagens em oficinas estabelecidas. Os aprendizes podem especializar-se desde cedo em trabalho de base, laca ou decoração, necessitando de muitos anos antes de serem encarregados de assumir responsabilidades independentes.
Instituições locais, museus e associações de artesãos apoiam esta transmissão através da organização de exposições, documentação técnica e programas de formação. Certos indivíduos associados ao Wajima-nuri foram reconhecidos como detentores de importantes técnicas de laca no âmbito do sistema japonês de proteção do património cultural imaterial.
Significado Cultural e Desenvolvimentos Modernos
O Wajima-nuri está intimamente ligado à identidade cultural de Wajima e da região de Noto em geral. A técnica está presente nos rituais domésticos, na hospitalidade, na troca de presentes e na decoração de interiores. O artesanato também desempenha um papel importante no turismo regional, com workshops, museus e espaços de demonstração que apresentam os processos e as peças finalizadas aos visitantes.
Nas últimas décadas, designers e artesãos têm experimentado novas formas, esquemas de cores e aplicações, incluindo utensílios de mesa contemporâneos, painéis para interiores e trabalhos colaborativos com outros materiais. Ao mesmo tempo, continua a existir uma procura por formas clássicas utilizadas na cozinha tradicional, na prática do chá e em jantares formais.
Os desafios incluem as flutuações na disponibilidade de laca natural, o envelhecimento da população de artesãos e o impacto das catástrofes naturais nas oficinas e infraestruturas. O apoio à reconstrução, os projetos de documentação e as colaborações com outras instituições culturais procuram assegurar a continuidade do Wajima-nuri como um artesanato vivo e como objeto de estudo.
Cuidados e Conservação
Os objetos de Wajima-nuri são sensíveis a extremos de secura, calor, luz ultravioleta e mudanças bruscas de humidade. Devem ser armazenados em condições estáveis, protegidos da luz solar direta e da luz artificial intensa.
A limpeza é feita com panos macios e, quando apropriado, água morna; pós abrasivos, detergentes fortes, álcool e solventes orgânicos devem ser evitados, pois podem danificar ou deixar a superfície da laca baça. Em contextos museológicos e de conservação, as intervenções priorizam a mínima alteração do material original, com qualquer substituição de laca ou decoração perdida cuidadosamente documentada e reversível sempre que possível.
Referências
- Prefeitura de Ishikawa e organismos nacionais sobre a designação e proteção de peças de laca de Wajima.
- Publicações do Museu de Arte Urushi de Wajima sobre história, técnicas e organização de workshops.
- Relatórios técnicos e manuais sobre a laca urushi japonesa, materiais de base e métodos de conservação.
- Catálogos de exposições e estudos sobre as tradições regionais da laca nas zonas de Noto e Hokuriku.